O Corvo ~ Edgar Allan Poe

Quirografia de Charles Sanders Peirce
sobre o poema The Raven.

Edgar Allan Poe (1809 – 1849), escritor, poeta, romancista, crítico literário e editor. Segundo filho de um casal de atores, Poe ficou órfão ainda criança e foi adotado por um casal rico de Richmond, Virgínia, o que lhe permitiu ter uma educação de qualidade. Conhece uma certa popularidade ao vencer simultaneamente os concursos de conto e poesia promovidos pela revista “Southern Literary Messager”. O fundador da publicação convidou-o para dirigir a revista, que rapidamente se impõe ao público. Durante dois anos, Poe esteve a frente do periódico, onde pôde exibir seu talento, que se manifestava num estilo novo, tanto no conto quanto na poesia, bem como pelos artigos de crítica literária que revelavam seu rigor e sensibilidade estética.

O Corvo” é uma de suas obras mais conhecidas. Foi ela que Poe usou como exemplo no seu instigante ensaio “Filosofia da Composição”, onde alega que nenhum ponto da composição pode ser atribuído à intuição ou à sorte; e que aquele poema avançou até seu término, passo a passo, com a mesma exatidão e lógica rigorosa de um problema matemático.

Grandes nomes traduziram O Corvo, das maneiras mais inusitadas possíveis – prosa, soneto, sexteto, e outros. Minha intenção, porém, foi solucionar melhor o eco da voz do corvo (never more) com o nome da mulher (Eleonor). Não encontrei tradução que mantivesse o eco, e todos partem para “Leonora/Nuncamais”. Embora a tônica da palavra tenha se deslocado, a combinação “Taís/Nuncamais” aproxima-se mais do eco original que “Eleonor/Nevermore” dispara no leitor de língua inglesa. No mais, é apenas mais um exercício de tradução.

 

O Corvo – Edgar Allan Poe

Certa meia-noite sombria, enquanto cansado lia e refletia
Sobre estranhos e curiosos volumes de doutrinas ancestrais
Cochilava, já quase adormecia, quando ouvi que alguém batia
Alguém batia, suavemente alguém batia em meus portais
“Um visitante”, resmunguei, batendo em meus portais —
Há de ser isso e nada mais.”

Ah, como eu me lembro, era um gélido e triste Dezembro,
E cada brasa moribunda que por dentro morria, forjava mil funerais
Excitado eu desejava o alvorar; futilmente busquei emprestar
Do meu livro cerrado de tanto penar — penar pela perda de Taís, —
Pela rara e radiante donzela a quem os anjos chamaram Taís —
Sem nome agora e jamais.

E a sedosa, sombria, serrazina batida de cada cortina
Aterrorizava-me com terrores nunca dantes visto iguais;
E meu coração inquieto ouvia de minha mente doentia:
“Um visitante querendo entrar em meus portais —
Algum visitante tardio querendo entrar em meus portais —;
Há de ser só isso, e nada mais.”

E minha alma de tal poder se formou que não mais hesitou,
“Senhor”, disse “ou Madame, meu perdão ofereço ademais,
Pois fato é que estava já adormecendo, e gentilmente alguém batendo,
Palidamente alguém batendo, batendo em meus portais,
Que o ouvi apenas vagamente” — e totalmente abri meus portais —
A escuridão encontrei, e nada mais.

A escuridão observando, estanque, a imaginação avoando, relutando
Duvidando, sonhando sonhos que mortal algum sonhou jamais;
Mas o silêncio era profundo, a calmaria de outro mundo
E a única palavra lá falada, sussurrada, foi a palavra, “Taís!”
Meu sussurro murmurou de volta o eco da palavra “Taís!”
Simplesmente isso, e nada mais.

E ao quarto voltava, minh’alma em chamas queimava,
Quando ouvi baterem, mais alto agora, novamente em meus portais.
Certamente, disse a mim mesmo, há algo com minha janela;
Certamente é isso, algo com a madeira ou com os vitrais –
Deixe meu coração se tranqüilizar na madeira e nos vitrais –
Há de ser o vento, e nada mais.”

Escancaro completamente meus portais, e de repente
Portenta ave, um corvo, adentra sei lá de que eras ancestrais.
Nenhuma reverência prestou, nem sequer um minuto hesitou;
Como se um nobre fosse, sem mais empoleirou-se em meus umbrais –
Empoleirado num busto de Pallas, justamente em meus umbrais –
Lá empoleirado, e nada mais.

E tal ave negra distrai-me por um instante de minha tristeza,
Pelo grave e áustero decoro que sustenta seus gestos rituais,
De crista bem aparada, disse-lhe ‘não és criatura acovardada,
Medonho e apavorante corvo, de lá das terras infernais –
Diga-me o nome de teu mestre, lá dos meios infernais!’
Grunhiu o corvo, ‘Nuncamais’

Muito me surpreendeu, pássaro raro que falasse tão claro
Embora fossem palavras de pouco sentido em discursos reais
Nenhum fulano ou beltrano, nenhum ser humano
Fora jamais abençoado com tal ave falante em seus umbrais –
Pássaro ou besta que seja, pousado em busto em seus umbrais,
Ainda mais chamado ‘Nuncamais’

Mas o corvo, que se sentava sobre o plácido busto, apenas falava,
Palavra única, como se sua alma fosse aquela palavra e nada mais.
Nada além ele pronunciou – nem mesmo uma só pena ele agitou –
Murmurei ‘Amigos vêm e vão em contínuos vens e vais –
Ao amanhecer ele partirá, como outrora minhas esperanças joviais.’
E o corvo disse, ‘Nuncamais.’

Aterrorizado por tão sábias palavras de sentido figurado
Disse, ‘Sem dúvida, são palavras fixas, decoradas, sempre iguais,
Aprendidas de algum infeliz, algum qualquer a quem o destino quis,
Que estas palavras fossem pronunciadas, todos os dias as mesmas tais
Compondo tenebroso estribilho, feito reza, todos os dias as mesmas tais
O sombrio Nunca-nuncamais

E o corvo ainda distraía-me de toda minha herdada tristeza,
E tranqüilamente sentado frente ao corvo e aos meus umbrais;
Quando então, afundado no veludo, passei, matuto,
A ligar os acontecimentos, e este agourento pássaro de lugares tais –
O que este cruel, tosco, esquálido e agourento pássaro de lugares tais
Quer dizer ao grunhir ‘Nuncamais.’

E eu sentado, prevendo, mas nenhuma palavra dizendo
Para a tal ave, cujos olhos me queimavam com olhares fatais
Isso e mais, eu sentado prevendo, minha cabeça pendendo
Em travesseiros de veludo, sob a luz de candelabros penumbrais
De quem os travesseiros, sob os candelabros penumbrais,
Dela seriam, ah, nuncamais!

O ar ficou então mais denso, tomado por um forte incenso
Onde anjos foram chegando com seus passos angelicais.
‘Desgraçado’, gritei, ‘teu Deus te concedeu – pelos anjos te concedeu
A rendição – rendido e torpente das memórias de Taís
Bêbado, oh bêbado e entorpecido, esquecido de Taís’
Grunhiu o corvo, ‘Nuncamais’

‘Profeta!’ eu disse, ‘coisa do mal! Ainda profeta, pássaro infernal
Se deliberadamente enviado, ou largado nestas praias funerais,
Ainda desolado, destemido, nesta desértica terra perdido –
Em meu lar aterrorizado, me diga a verdade, e nada mais –
Existe – existe paz no Perpétuo? A verdade e nada mais!’
Grunhiu o corvo, ‘Nuncamais’

‘Profeta!’ eu disse, ‘coisa do mal! Ainda profeta, pássaro infernal
Por estes céus angelicais, por todos os deuses elementais
Diga a esta alma atormentada, se além do Éden faz morada
Uma bela donzela, a quem os anjos chamaram Taís –
Única e radiante donzela, a quem os anjos chamaram Taís?’
Grunhiu o corvo, ‘Nuncamais’

‘Seja esta palavra nosso adeus eterno, demônio ou ave do inferno,
Volta para a profundeza de tuas noites eternais!
E não deixe legado das heresias que tem falado!
Deixe-me cá só e abandonado! – saia já de meus umbrais!
Leve tua figura e todos os teus sinais pra longe de meus umbrais!’
Grunhiu o corvo, ‘Nuncamais’

E o corvo, parado, ainda empoleirado, e ainda empoleirado
Sobre o pálido busto de Pallas que está acima de meus umbrais;
Seu olhar demoníaco transparece sua presença refece,
E a luz projetada sobre ele escoa em sombra nos meus umbrais;
E minh’alma presa a esta sombra, ainda hoje em meus umbrais
Ascenderá – nuncamais!

* * *

 

The Raven – Edgar Allan Poe

Once upon a midnight dreary, while I pondered, weak and weary,
Over many a quaint and curious volume of forgotten lore,
While I nodded, nearly napping, suddenly there came a tapping,
As of some one gently rapping, rapping at my chamber door.
“‘Tis some visitor,” I muttered, “tapping at my chamber door-
Only this, and nothing more.”

Ah, distinctly I remember it was in the bleak December,
And each separate dying ember wrought its ghost upon the floor.
Eagerly I wished the morrow;- vainly I had sought to borrow
From my books surcease of sorrow- sorrow for the lost Eleonor-
For the rare and radiant maiden whom the angels name Eleonor-
Nameless here for evermore.

And the silken sad uncertain rustling of each purple curtain
Thrilled me- filled me with fantastic terrors never felt before;
So that now, to still the beating of my heart, I stood repeating,
“‘Tis some visitor entreating entrance at my chamber door-
Some late visitor entreating entrance at my chamber door;-
This it is, and nothing more.”

Presently my soul grew stronger; hesitating then no longer,
“Sir,” said I, “or Madam, truly your forgiveness I implore;
But the fact is I was napping, and so gently you came rapping,
And so faintly you came tapping, tapping at my chamber door,
That I scarce was sure I heard you”- here I opened wide the door;-
Darkness there, and nothing more.

Deep into that darkness peering, long I stood there wondering, fearing,
Doubting, dreaming dreams no mortals ever dared to dream before;
But the silence was unbroken, and the stillness gave no token,
And the only word there spoken was the whispered word, “Eleonor!”
This I whispered, and an echo murmured back the word, “Eleonor!”-
Merely this, and nothing more.

Back into the chamber turning, all my soul within me burning,
Soon again I heard a tapping somewhat louder than before.
“Surely,” said I, “surely that is something at my window lattice:
Let me see, then, what thereat is, and this mystery explore-
Let my heart be still a moment and this mystery explore;-
‘Tis the wind and nothing more.”

Open here I flung the shutter, when, with many a flirt and flutter,
In there stepped a stately raven of the saintly days of yore;
Not the least obeisance made he; not a minute stopped or stayed he;
But, with mien of lord or lady, perched above my chamber door-
Perched upon a bust of Pallas just above my chamber door-
Perched, and sat, and nothing more.

Then this ebony bird beguiling my sad fancy into smiling,
By the grave and stern decorum of the countenance it wore.
“Though thy crest be shorn and shaven, thou,” I said, “art sure no craven,
Ghastly grim and ancient raven wandering from the Nightly shore-
Tell me what thy lordly name is on the Night’s Plutonian shore!”
Quoth the Raven, “Nevermore.”

Much I marvelled this ungainly fowl to hear discourse so plainly,
Though its answer little meaning- little relevancy bore;
For we cannot help agreeing that no living human being
Ever yet was blest with seeing bird above his chamber door-
Bird or beast upon the sculptured bust above his chamber door,
With such name as “Nevermore.”

But the raven, sitting lonely on the placid bust, spoke only
That one word, as if his soul in that one word he did outpour.
Nothing further then he uttered- not a feather then he fluttered-
Till I scarcely more than muttered, “other friends have flown before-
On the morrow he will leave me, as my hopes have flown before.”
Then the bird said, “Nevermore.”

Startled at the stillness broken by reply so aptly spoken,
“Doubtless,” said I, “what it utters is its only stock and store,
Caught from some unhappy master whom unmerciful Disaster
Followed fast and followed faster till his songs one burden bore-
Till the dirges of his Hope that melancholy burden bore
Of ‘Never- nevermore’.”

But the Raven still beguiling all my fancy into smiling,
Straight I wheeled a cushioned seat in front of bird, and bust and door;
Then upon the velvet sinking, I betook myself to linking
Fancy unto fancy, thinking what this ominous bird of yore-
What this grim, ungainly, ghastly, gaunt and ominous bird of yore
Meant in croaking “Nevermore.”

This I sat engaged in guessing, but no syllable expressing
To the fowl whose fiery eyes now burned into my bosom’s core;
This and more I sat divining, with my head at ease reclining
On the cushion’s velvet lining that the lamplight gloated o’er,
But whose velvet violet lining with the lamplight gloating o’er,
She shall press, ah, nevermore!

Then methought the air grew denser, perfumed from an unseen censer
Swung by Seraphim whose footfalls tinkled on the tufted floor.
“Wretch,” I cried, “thy God hath lent thee- by these angels he hath sent thee
Respite- respite and nepenthe, from thy memories of Eleonor!
Quaff, oh quaff this kind nepenthe and forget this lost Eleonor!”
Quoth the Raven, “Nevermore.”

“Prophet!” said I, “thing of evil!- prophet still, if bird or devil!-
Whether Tempter sent, or whether tempest tossed thee here ashore,
Desolate yet all undaunted, on this desert land enchanted-
On this home by horror haunted- tell me truly, I implore-
Is there- is there balm in Gilead?- tell me- tell me, I implore!”
Quoth the Raven, “Nevermore.”

“Prophet!” said I, “thing of evil- prophet still, if bird or devil!
By that Heaven that bends above us- by that God we both adore-
Tell this soul with sorrow laden if, within the distant Aidenn,
It shall clasp a sainted maiden whom the angels name Eleonor-
Clasp a rare and radiant maiden whom the angels name Eleonor.”
Quoth the Raven, “Nevermore.”

“Be that word our sign in parting, bird or fiend,” I shrieked, upstarting-
“Get thee back into the tempest and the Night’s Plutonian shore!
Leave no black plume as a token of that lie thy soul hath spoken!
Leave my loneliness unbroken!- quit the bust above my door!
Take thy beak from out my heart, and take thy form from off my door!”
Quoth the Raven, “Nevermore.”

And the Raven, never flitting, still is sitting, still is sitting
On the pallid bust of Pallas just above my chamber door;
And his eyes have all the seeming of a demon’s that is dreaming,
And the lamplight o’er him streaming throws his shadow on the floor;
And my soul from out that shadow that lies floating on the floor
Shall be lifted- nevermore!

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