Ao Pé do Ben Bulben ~ W. B. Yeats

Ben Bulden – Hazel Greene

Ao Pé do Ben Bulben
para Márcia Ferrari Castro

Ben Bulben é uma grande formação rochosa no Condado de Sligo, aqui na República da Irlanda. Faz parte das Montanhas de Dartry, uma área conhecida como “O País de Yeats”. Às vezes grafado Benbulben ou Benbulbin, anglicismo para o nome irlandês “Binn Ghulbain” – Binn, pico ou montanha; Ghulbain, uma referência a Conall Gulban, rei irlandês do Século V, filho de Niall Noígiallach.

I

Juro por tudo que é sagrado
Sobre o Lago Mareotic
Que as bruxas do Atlas já sabiam,
Falaram e definiram o cantar dos galos.

Juro por aqueles cavaleiros, aquelas damas
Pele e forma comprovadamente sobre-humanas,
Palidez, lânguida amizade
Simulando certa imortalidade
Plena de suas paixões discernidas;
Conduzem manhãs de invernias
Onde o Ben Bulben rouba a cena.

Eis o que querem dizer, na essência.

II
Muitas vezes vivemos e morremos
Entre as eternidades que criamos,
À raça e à alma pertinentes,
Sendo a antiga Irlanda disso sapiente.
Se alguém morre tranquilo em seu leito
Ou com um tiro de espingarda no peito,
Uma breve cerimônia para entreter
É o pior que se pode oferecer.
Embora a labuta dos coveiros seja maior,
Mais calibre em suas armas, em seus corpos mais vigor.
Apenas socam nossos defuntos terra adentro
Que tentam sobreviver ao menos em pensamento.

III
Vocês que presenciaram Mitchel* em seu clamor:
“Envie a guerra para nós, ó Senhor!”
Saibam que quando nada resta a ser dito
E um homem ainda luta pela vida, aflito,
Dos olhos cegos escorrem lágrimas,
Sua consciência em estâncias últimas
Por um instante, em distração se desfaz,
Ri em voz alta, no coração sente uma paz.
Mesmo alguém experiente e sabido
Perante tal violência se sente perdido
Antes que ele possa erguer seu prumo,
Escolher seu companheiro, tomar seu rumo.

IV
Escultor e Poeta, trabalhe,
Não deixe que a moda manche
O que seus antepassados fizeram.
Traga a alma dos homens a Deus,
Faça com que eles encham o berço.

Medidas foram tomadas no cerco:
Repercussão de doutrinas egípcias,
Que Fídias forjou em formas propícias.

Uma prova Michelangelo assina
No teto da Capela Sistina,
Onde um Adão praticamente sem roupa
Perturba uma Senhora quase louca
Ao ter suas entranhas expostas,
Provando que sempre haverá respostas
Antes que a mente secretamente trabalhe:
Viole a perfeição da humanidade.

O Século XV como pano de fundo
Para Deuses e Santos deste mundo
Jardins onde almas ficam à vontade;
Onde tudo que se reflete nos olhos,
Flores, gramas, e céus assombrosos,
Lembram formas que são ou foram
Quando sonâmbulos ainda sonhavam.
E quando se vão, ainda dizem,
Do único leito que ainda tinham,
Que os céus sobre eles se abriram.

Rodopio exacerbado;
Quando o sonho já tinha acabado
Calvert, Wilson, Blake e Claude, reunidos
Preparam o repouso dos Escolhidos
Palmer discursa, mas ainda assim
A dúvida repousa sobre mim.

V
Poetas irlandeses, façam sua parte,
Cantem o que quer que seja arte,
Descartem aquilo que talvez floresça
Fora de forma, dos pés à cabeça,
De corações e cabeças inviáveis
Produtos de fontes não-confiáveis.
Cante aos componeses, seus vigores,
Cavalgue país afora, pelos interiores
A santidade dos monges, e além
Os beberrões, os abstênicos também;
Cante a alegria de senhores e senhoras
Abatidos ao longo da história
Por séculos e séculos heróicos;
Tenha em mente estes outros dias
Em que ainda veremos chegar a vez
Deste indomável espírito Irlandês.

VI
Sozinho ao pé do Ben Bulben
Yeats descansa no adro de Drumcliff.
Um antepassado seu foi reitor por lá
Há muitos anos, numa igreja das redondezas.
Uma antiga cruz na estrada,
Sem lápide, nem dedicatória;
Num calcário escavado próximo ao local
Ao seu dispor, estas palavras eram talhadas:

Lance um olhar frio
Sobre a vida, sobre a morte.
E releve, cavaleiro!

* John Mitchel (03/11/1815 – 20/03/1875) foi um ativista e nacionalista irlandês, advogado e jornalista político. Nascido em Camnish, perto de Dungiven, no Condado de Derry (Londonderry para os norte-irlandeses), tornou-se um dos líderes dos grupos ‘Young Ireland’ e ‘Irish Confederation’. Seu livro ‘Jail Journal’ é um dos textos mais famosos do nacionalismo irlandês. Aqui Yeats refere-se à frase de Mitchell “O Todo-Poderoso certamente enviou a praga da batata, mas os inglêses criaram a Fome e uma ‘oração’ para a guerra – “Envie guerra para nossos tempos, ó Senhor!”

Under Ben Bulben

I

Swear by what the sages spoke
Round the Mareotic Lake
That the Witch of Atlas knew,
Spoke and set the cocks a-crow.

Swear by those horsemen, by those women
Complexion and form prove superhuman,
That pale, long-visaged company
That air in immortality
Completeness of their passions won;
Now they ride the wintry dawn
Where Ben Bulben sets the scene.

Here s the gist of what they mean.

II

Many times man lives and dies
Between his two eternities,
That of race and that of soul,
And ancient Ireland knew it all.
Whether man die in his bed
Or the rifle knocks him dead,
A brief parting from those dear
Is the worst man has to fear.
Though grave-diggers’ toil is long,
Sharp their spades, their muscles strong.
They but thrust their buried men
Back in the human mind again.

III

You that Mitchel’s prayer have heard,
‘Send war in our time, O Lord!’
Know that when all words are said
And a man is fighting mad,
Something drops from eyes long blind,
He completes his partial mind,
For an instant stands at ease,
Laughs aloud, his heart at peace.
Even the wisest man grows tense
With some sort of violence
Before he can accomplish fate,
Know his work or choose his mate.

IV

Poet and sculptor, do the work,
Nor let the modish painter shirk
What his great forefathers did.
Bring the soul of man to God,
Make him fill the cradles right.

Measurement began our might:
Forms a stark Egyptian thought,
Forms that gentler phidias wrought.
Michael Angelo left a proof
On the Sistine Chapel roof,
Where but half-awakened Adam
Can disturb globe-trotting Madam
Till her bowels are in heat,
proof that there’s a purpose set
Before the secret working mind:
Profane perfection of mankind.

Quattrocento put in paint
On backgrounds for a God or Saint
Gardens where a soul’s at ease;
Where everything that meets the eye,
Flowers and grass and cloudless sky,
Resemble forms that are or seem
When sleepers wake and yet still dream.
And when it’s vanished still declare,
With only bed and bedstead there,
That heavens had opened.
Gyres run on;
When that greater dream had gone
Calvert and Wilson, Blake and Claude,
Prepared a rest for the people of God,
Palmer’s phrase, but after that
Confusion fell upon our thought.

V

Irish poets, earn your trade,
Sing whatever is well made,
Scorn the sort now growing up
All out of shape from toe to top,
Their unremembering hearts and heads
Base-born products of base beds.
Sing the peasantry, and then
Hard-riding country gentlemen,
The holiness of monks, and after
Porter-drinkers’ randy laughter;
Sing the lords and ladies gay
That were beaten into the clay
Through seven heroic centuries;
Cast your mind on other days
That we in coming days may be
Still the indomitable Irishry.

VI

Under bare Ben Bulben’s head
In Drumcliff churchyard Yeats is laid.
An ancestor was rector there
Long years ago, a church stands near,
By the road an ancient cross.

No marble, no conventional phrase;
On limestone quarried near the spot
By his command these words are cut:

Cast a cold eye          
On life, on death.          
Horseman, pass by!          

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