Duas Línguas ~ Fracisco Niebro


William Paul Morehouse
Duality 54×68 oil/canvas 1984

Amadeu Ferreira (Sendin, 29 de Julho de 1950) é advogado, poeta e escritor. É um dos principais responsáveis pela promoção do Mirandês. É presidente da Associação de Língua Mirandesa, com sede em Lisboa. Amadeu Ferreira conseguiu universalizar a literatura mirandesa através da poesia, da prosa e do teatro, elevando os níveis de criatividade e linguística a patamares inimagináveis até poucos anos atrás. Apesar de Leite de Vasconcelos* ter definido a língua como sendo do amor, da paisagem e do trabalho, Ferreira mostra que ela também serve para expressar outras coisas.

Duas Línguas

Fracisco Niebro é um dos pseudônimos utilizados por Amadeu Ferreira quando escreve em mirandês.

Estive anos a fio com a língua torcida pela
obrigação de desviar seu caminho e ter de
pensar antes de dizer as palavras certas:
uma língua nasceu comigo, comendo merendas, bebendo em fontes e ribeiras
Outra é resto de uma guerra de muitas batalhas.
Agora trago duas línguas comigo
E já não vivo sem as duas
Estou sempre trocando as línguas com certo medo
como se eu fosse um bígamo.
Uma sabe coisas que a outra não conhece

riem uma da uma da outra fazendo piadas e às vezes
se enraivecem
fora isso se dão tão bem que sonho nas duas ao mesmo tempo
Tem dias que quero falar uma e me sai a outra
Tem dias em que fico com uma delas tão engasgada que se não falo explodo.
Há dias em que se enredam uma na outra
e depois se põem a correr para ver quem chega primeiro,
e muitas vezes acabam se enroscando uma na outra
e me dá vontade de rir.
Há dias em que fico sobrecarregado pelas palavras não ditas
e me ergo nelas como numa escalada
deixando-as voar como música
com medo que enferrujem as cordas que as sabem tocar.
Há dias em que quero traduzir uma para a outra
mas as palavras se escondem de mim
e passo muito tempo a procurá-las

Elas dividem o meu mundo
e quando passam a fronteira sentem-se meio perdidas
E fartam-se a roubar palavras uma da outra
Ambas as duas pensam
mas há partes do coração que uma delas não consegue entrar
e quando chegam na porta o sangue jorra das palavras
Cada uma sendo precursora da outra
o mirandês nasceu primeiro e me fazia dormir
embalado pelos seus sons acalentados como um consolo
e ensinou o português a falar guiando-lhe a voz
o português nasceu-me da ponta dos dedos
e ensinou o mirandês a escrever pois este nunca teve escola para ir
Tenho duas línguas em mim
duas línguas que me fizeram
E já não passo nem sou eu sem as duas.

* José Leite de Vasconcelos, mais conhecido por Leite de Vasconcelos, foi um linguista, filólogo, arqueólogo e etnógrafo português que dedicou parte importante da sua vida ao estudo e à divulgação da língua mirandesa. Foi ele quem normatizou a escrita mirandesa com duas importantes obras, O Dialecto Mirandez, de 1882, e Estudos de Filologia Mirandesa, de 1900 e 1901, em dois volumes.

Dues LhénguasFracisco Niebro

Andube anhos a filo cula lhéngua trocida pula
oubrigar a salir de l sou camino i tener de
pensar antes de dezir las palabras ciertas:
ua lhéngua naciu-me comi-la an merendas bubi-la an fuontes i rigueiros
outra ye çpoijo dua guerra de muitas batailhas.
Agora tengo dues lhénguas cumigo
i yá nun passo sin ambas a dues.
Stou siempre a trocar de lhéngua meio a miedo
cumo se fura un caso de bigamie.
Ua sabe cousas que la outra nun conhece
ríen-se ua de la outra fazendo caçuada i a las bezes anrábian-se
afuora esso dan-se tan bien que sonho nas dues al miesmo tiempo.
Hai dies an que quiero falar ua i sale-me la outra.
Hai dies an que quedo cun ua deilhas tan amarfanhada que se nun la falar arrebento.
Hai dies an que se m’angarabátan ua an la outra
i apuis bótan-se a correr a ber quien chega purmeiro
i muitas bezes acában por salir ancatrapelhadas ua an la outra
i a mi dá-me la risa.
Hai dies an que quedo todo debelgado culas palabras por dezir
i ancarrapito-me neilhas cumo ua scalada
i deixo-las bolar cumo música
cul miedo que anferrúgen las cuordas que las sáben tocar.
Hai dies an que quiero bertir ua pa la outra
mas las palabras scónden-se-me
i passo muito tiempo atrás deilhas.
Antre eilhas debíden l miu mundo
i quando pássan la frunteira sínten-se meio perdidas
i fártan-se de roubar palabras ua a la outra.
Ambas a dues pénsan
mas hai partes de l coraçon an que ua deilhas nun cunsigue antrar
i quando s’achega a la puorta pon l sangre a golsiar de las palabras.
Cada ua fui pursora de la outra:
l mirandés naciu purmeiro i you afize-me a drumir
arrolhado puls sous sonidos calhientes cumo lhúrias
i ansinou l pertués a falar guiando-le la boç;
l pertués naciu-me an la punta de ls dedos
i ansinou l mirandés a screbir porque este nunca tube scuola para donde ir.
Tengo dues lhénguas cumigo
dues lhénguas que me fazírun
i yá nun passo nin sou you sin ambas a dues.

Eduardo Miranda é músico, escritor, poeta, e tradutor. Guitarrista e fundador do grupo WEJAH, atualmente lidera o projeto musical The Virtual Em3, é integrante da banda Wellfish e colabora no Stillwater Project. Publicou Quase (Casa Pyndahýba, poesia, 1998) e as coletâneas Amigos (Casa Pyndahýba, 1994) e Contra Lamúria (Casa Pyndahýba, 1995). Editor de TUDA, também dá expediente em alguns blogs, e nas horas vagas é Consultor de Tecnologia da Informação em Dublin, República da Irlanda.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s