Cecília ~ Antonio Gamoneda

Antonio Gamoneda

Cecilia, de Antonio Gamoneda, é um pequeno livro, o número 10 da coleção “Péñola Blanca” de poesia, publicado pela Fundación César Manrique, da qual foram impressos apenas 400 exemplares, em papel artesanal Velin D’Arches, branco. A ilustração da edição é de Alberto Corazón. Encadernado artesanalmente por Sánchez Álamo, durante as comemorações de San Marcial, a 30 de Junho de 2004, quando veio à luz nas oficinas gráficas da Cromoimagen, em Madrid.

Cecília

Dormes sob a pele de tua mãe e seus sonhos penetram em teus sonhos. Despertarás na mesma confusão iluminada.
Ainda não sabes quem és, estás dividida entre tua mãe e uma palpitação vigorosa.

*

Desaguavas na escuridão; era mais suave do que existir.
Agora, que uma lágrima muito viva poderia ferir seu rosto,
prudente vais para si mesma.

*

Como se te estabelecesses em meu coração e tivesse luz dentro de minhas veias e eu enlouquecesse suavemente, é tudo exato em tua clareza:

te aportaste em meu coração,
corre luz por minhas veias,
enlouqueci suavemente.

*

Sob os salgueiros
tomo-te em meus braços e te sinto viver.
Depois saímos para a luz e, pela primeira vez,
vês o céu, aponta para ele e quer dar-lhe um nome.

É verdade, na extremidade de tuas mãos,
o céu é grande e azul.

*

Acheguei meus lábios a tuas mãos e tua pele tinha a suavidade dos sonhos.
Algo como a eternidade tocou meus lábios por um instante.

*

Algumas tardes o crepúsculo não ilumina teus cabelos;
não estás em lugar nenhum e fala por palavras cujo significado desconheces.
Meu pensamento também é assim.

*

És como a pomba que cisca a terra e se levanta e se afasta na luz.
Atravessas um resplendor
e eu te amo de longe.

*

Vais voltar
“quando nasçam as cerejas e desperte a rolinha.
Desenhaste o mundo numa mentira brilhante.

Eu vi os olhos das rolinhas avermelhados de raiva,
Sei que o loureiro possui ácido cianídrico
e que seus frutos imobilizam o coração dos pássaros.

Mas há cerejas escondida na neve e
ouço o lamento da rolinha.

*

Chove grãos de ouro
e os perfumes de março envolvem nossos corpos.

É como em teus olhos;
chove através da luz.

*

Com as mãos guiadas por uma música que vagamente se lembra,
diz adeus no portal. Ah tola doçura,
diz adeus no portal e se desprende de tuas mãos
um instante sem limites.

*

Entra em tua mãe e abre nela tuas pálpebras,
entra lentamente em seu coração.

Volta a ser fruto no silêncio. Sejas
como uma árvore que envolve a palpitação dos pássaros
e se inclina, e descendem o perfume e a sombra.

*

Em teus lábios formam-se palavras desconhecidas
e o invisível gira em torno de ti delicadamente.

*

Seu rosto sai do espelho como uma asa que abandona o instante. Eu amo teu rosto no espelho; eu
amo quanto estás me abandonando.

*

Ouço teu canto.
Subo aos quartos onde a sombra pesa nas madeira imóveis, mas não estás: só estão as savanas que embalaram teus sonhos.
Tudo em mim já é extinção?
Ainda não. Mas além do silêncio,
ouço outra vez teu canto.

Que estranha se tornou a existência:
sorris no passado
enquanto sei que vivo porque te ouço chorar.

*

Com sua língua perfurada por uma ignorância aparente falas de uma flor invisível. Falas de si mesma.
Nunca tive em minhas mãos
uma flor invisível.

*

Eu estava cego na lucidez mas dissimulaste a loucura.
Tudo é visão, tudo é livre de significado.

*

Teus cabelos em minhas mãos, seu resplendor atravessado por enxames invisíveis, por instantes que não deixam de me abandonar;
teus cabelos entre duas falsas eternidades.
Ah estranheza lenhosa, teus cabelos
em minhas mãos.

*

Estás sozinha em sí, debaixo de tua luz, chorando.
Há uma pétala ferida em teu rosto
Flui
teu canto em minhas veias. Tú
és minha enfermidade e tú me salvas.

*

Olhas a neve sobre as folhas do loureiro. Reténs em teus olhos a brancura e a sombra e repares o silêncio dos pássaros.
Sei que os pássaros fugiram, que não voltarão e que existes bem além dos meus limites.
Tú és a neve.

*

Sobre a piscina
as pombas voam em torno da tua cabeça.
Quando suas asas roçam teus cabelos, eu me inclino e vejo tua claridade na água
e eu estou na tua claridade e me desconheço:
estou coroado de pombas
dentro da água. Em ti.

*

Sonhas.
Tens medo do que não existe e ouves gemidos em jardins negros.
Eu também tenho medo do meu rosto que vai se tornando invisível.
Pare de sonhar, ou, melhor, sonhe os rostos que estão fora de ti:
olha para mim.

*

Em teus olhos se imobiliza a tristeza; não é ainda tua tristeza, mas me olhas
e dos teus olhos caem uma pétala de sombra.

*

Te esqueces de me olhar; ah, cega lenhosa.
Teus braços se afastam de mim, mas eu fujo de mim em teus braços.
Teu pensamento me ignora
mas eu sou teu pensamento.

*

Como música cujo silêncio ainda permanece sinto tuas mãos distantes em mim.
Assim é
o exílio e a doçura.

*

Não é o grito dos pássaros além das sombras
nem o tremor do enxofre na quietude da tormenta;
não é o mercúrio em minhas veias
nem a espessura do verão em meu coração.
Não é nada realmente: teu rosto abandonou meus sonhos
e não te encontro sob minhas pálpebras.

*

Temes minhas mãos
mas às vezes sorríes e te extravías em ti mesma
e, sem o saber, espalha luz ao redor de si
e eu apresso minhas mãos mas não chego a te tocar; apenas
acaricio tua luz.

*

Fugiu de mim.
Talvez esteja em ti e apenas o sintas em teu pequeno coração.
Sim; é uma sombra; não
pesa em teu coração.

*

Disses: “a luz virá”. Não é sua hora
mas desconheces a impossibilidade:
pensas a luz.

*

Estarei em teu pensamento, não serei mais que uma sombra imprecisa;
terei existido num instante em que a alegria e a piedade ardiam em teus olhos.
Mas também quero permanecer desconhecido em ti.
Desconhecido. Simplesmente envolto em tua felicidade.
Tú distraída em tua luz e eu apenas vivendo nela, e assim, imperceptivelmente amado, esperar a minha hora.
Ainda que embora estejamos já separados por um fio de sombra e cada um está em sua própia luz
e a minha é a que tú vai abandonando.

*

És como uma flor ante o abismo, és
a última flor.

Cecilia

Duermes bajo la piel de tu madre y sus sueños penetran en tus sueños. Vais a despertar en la misma confusión luminosa.
Aún no sabes quién eres; estás indecisa entre tu madre y un temblor viviente.

*

Fluías en la oscuridad; era más suave que existir.
Ahora, cuando una lágrima demasiado viva podría herir tu rostro,
vas cautelosa hacia ti misma.

*

Como si te posases en mi corazón y hubiese luz dentro de mis venas y yo enloqueciese dulcemente; todo es cierto en tu claridad:
te has posado en mi corazón,
hay luz dentro de mis venas,
he enloquecido dulcemente.

*

Bajo los sauces
yo te llevo en mis brazos y te siento vivir.
Después salimos a la luz y, por primera vez,
tú ves el cielo y lo señalas y lo nombras.

Es verdad; en el extremo de tus manos,
el cielo es grande y azul.

*

Acerqué mis labios a tus manos y tu piel tenía la suavidad de los sueños.
Algo semejante a la eternidad rozó un instante mis labios.

*

Algunas tardes el crepúsculo no enciende tus cabellos;
no estás en ningún lugar y hablas con palabras cuyo significado desconoces.
Así es también mi pensamiento.

*

Eres como la paloma que roza la tierra y se levanta y se aleja en la luz.
Tú atraviesas un resplandor
y yo te amo desde lejos.

*

Vas a volver
“cuando nazcan las cerezas y despierte la tórtola”.
Has dibujado el mundo en una mentira luminosa.

Yo vi los ojos de la tórtola enrojecidos por la ira,
sé que en el lauro habita el ácido prúsico
y que sus frutos inmovilizan el corazón de los pájaros.

Pero hay cerezas ocultas en la nieve y
oigo el gemido de la tórtola.

*

Llueve en hebras doradas
y envuelven nuestros cuerpos los perfumes de marzo.

Sucede como en tus ojos:
llueve a través de la luz.

*

Con tus manos conducidas por una música que vagamente recuerdas,
dices adiós en el umbral. Ah insensata dulzura,
dices adiós en el umbral y de tus manos se desprende
un instante sin límites.

*

Entra en tu madre y abre en ella tus párpados,
entra despacio en su corazón.

Vuelve a ser fruto en el silencio. Sed
como un árbol que envuelve la palpitación de los pájaros
y se inclina, y descienden el perfume y la sombra.

*

En tus labios se forman palabras desconocidas
y lo invisible gira en torno a ti suavemente.

*

Tu rostro sale del espejo como un ala que abandona el instante. Yo amo tu rostro en el espejo; yo
amo cuanto me está abandonando.

*

Oigo tu llanto.
Subo a las habitaciones donde la sombra pesa en las maderas inmóviles, pero no estás: sólo están las sábanas que envolvieron tus sueños.
¿Todo en mí es ya desaparición?
No aún. Más allá del silencio,
oigo otra vez tu llanto.

Qué extraña se ha vuelto la existencia:
tú sonríes en el pasado
y yo sé que vivo porque te oigo llorar.

*

Con tu lengua atravesada por una ignorancia luminosa hablas de una flor invisible. Hablas de ti misma.
Nunca tuve en mis manos
una flor invisible.

*

Estaba ciego en la lucidez pero tú has hecho girar la locura.
Todo es visión, todo está libre de sentido.

*

Tus cabellos en mis manos, su resplandor atravesado por enjambres invisibles, por instantes que no cesan de abandonarme;
tus cabellos entre dos falsas eternidades.
Ah extrañeza llena de luz: tus cabellos
en mis manos.

*

Estás sola en ti, debajo de tu luz, llorando.
Hay un pétalo herido en tu rostro.
Fluye
tu llanto en mis venas. Tú
eres mi enfermedad y tú me salvas.

*

Miras la nieve prendida en las hojas del lauro. Retienes`en tus ojos la blancura y la sombra y adviertes el silencio de los pájaros.
Yo sé que los pájaros han huido, que no van a volver y que tú existes más allá de mis límites.
Tú eres la nieve.

*

Sobre el estanque
las palomas giran en torno a tu cabeza.
Cuando sus alas rozan tus cabellos, yo me inclino y veo tu claridad en el agua
y yo estoy en tu claridad y me desconozco:
estoy coronado de palomas
dentro del agua. En ti.

*

Sueñas.
Tienes miedo de lo que no existe y oyes gemidos en jardines negros.
Yo también tengo miedo de mi rostro que se va haciendo invisible.
Cesa de soñar, o, mejor, sueña los rostros que están fuera de ti:
mírame.

*

En tus ojos se inmoviliza la tristeza; no es aún tu tristeza, pero me miras
y de tus ojos cae un pétalo de sombra.

*

Te olvidas de mirarme; ah ciega llena de luz.
Tus brazos se retiran de mí, pero yo huyo de mí en tus brazos.
Tu pensamiento me ignora
pero yo soy tu pensamiento.

*

Como música de la que aún permanece el silencio siento tus manos lejanas en mí.
Así es
la desaparición y la dulzura.

*

No es el grito de los pájaros más allá de las sombras
ni el temblor del azufre en la quietud de la tormenta;
no es el mercurio en mis venas
ni el espesor del verano en mi corazón.
No es nada realmente: tu rostro ha abandonado mis sueños
y no te encuentro debajo de mis párpados.

*

Temes mis manos
pero a veces sonríes y te extravías en ti misma
y, sin saberlo, extiendes luz en torno a ti
y yo adelanto mis manos y no llego a tocarte; únicamente
acaricio tu luz.

*

Huyó de mí.
Quizá está en ti y apenas lo sientes en tu pequeño corazón.
Sí; es una sombra; no
pesa en tu corazón.

*

Dices: “va a venir la luz”. No es su hora
pero tú desconoces la imposibilidad:
piensas la luz.

*

Yo estaré en tu pensamiento, no seré más que una sombra imprecisa;
habré existido en un instante en que la alegría y la piedad ardían en tus ojos.
Pero también quiero permanecer desconocido en ti.
Desconocido. Simplemente envuelto en tu felicidad.
Tú distraída en tu luz y yo apenas viviente en ella, y así, imperceptiblemente amado, esperar la desaparición.
Aunque quizá estamos ya separados por un hilo de sombra y cada uno está en su propia luz
y la mía es la que tú vas abandonando.

*

Eres como una flor ante el abismo, eres
la última flor.

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